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terça-feira, 24 de maio de 2011

VOL. VII - PETRONILHO DE BRITO


Nasceu em São Paulo (SP) a 31 de maio de 1904.
Ponta-de-lança de baixa estatura, drible rápido e desconcertante, criativo. Para muitos, foi o verdadeiro inventor da "bicicleta". Irmão de Valdemar de Brito, o descobridor de Pelé, Petronilho de Brito foi o primeiro negro brasileiro a jogar num clube estrangeiro. Lançou definitivamente a figura do negro no futebol paulista e brasileiro.
Começou a jogar no Antarctica F. C., aos dezessete anos, em 1921. Nesse ano, desgostosos com os rumos tomados pela A.P.E.A., os clubes da Segunda Divisão, entre eles, o Antarctica, se rebelaram. Solicitaram desfiliação da A.P.E.A. e fundaram a Federação Paulista de Esportes, cujo campeonato foi iniciado no dia 22 de maio. Foi um campeonato inexpressivo, tal como a nova entidade, que teve vida curta, apesar das tentativas promocionais, como um festival que efetuou no meio do ano, com renda em benefício da Matriz da Mooca. Os clubes revoltosos disputaram o seu campeonato particular, que foi um fracasso, o que determinou a extinção da Federação Paulista de Esportes. Com a extinção da mesma, a A.P.E.A. acolheu de volta os dissidentes.
No dia 1º de janeiro de 1922, já defendendo o Minas Gerais, contra o Vila Isabel, do Rio de Janeiro, e que terminou empatado em 4 x 4, Petronilho de Brito fez de bicicleta um dos quatro gols que marcou, sendo ele o inventor dessa jogada, que muitos atribuem a Leônidas da Silva. O jornal "A Platéia", no dia seguinte ao jogo, noticiou a sensacional jogada de Petronilho de Brito, denominando-a de "bicicleta". Posteriormente, outros gols iguais se sucederam.
Para os brasileiros e grande parte do mundo, Leônidas da Silva é considerado o inventor da "bicicleta". Outros afirmam que foi Unzaga e chamam a jogada de "chilena". O próprio Leônidas da Silva creditava a Petronilho de Brito a invenção da jogada. De qualquer modo, foi com Leônidas da Silva que a bicicleta se tornou famosa em todo o mundo.
No dia 30 de abril de 1922 fez sua estréia no Campeonato Paulista da A.P.E.A., na vitória de 1 x 0 sobre o São Bento. O primeiro gol no novo clube só veio a acontecer em 15 de outubro, contra o mesmo São Bento: 3 x 0. A presença de Petronilho de Brito não impediu que o Minas Gerais tivesse, juntamente com o São Bento, o ataque menos positivo do campeonato, com 25 gols. O Minas Gerais foi o 7º e penúltimo colocado. Nos 16 jogos que Petronilho de Brito disputou, marcou 5 gols.
Continuou no Minas Gerais em 1923. E o clube não melhorou seu rendimento em relação ao ano anterior. O Minas Gerais não conseguiu classificação para o returno. Foi o último colocado entre os 12 clubes que disputaram a primeira fase do campeonato de 1923. A participação de Petronilho de Brito foi: 10 jogos e 3 gols. Desses, dois foram marcados no dia 13 de maio de 1923, no empate de 3 x 3 com o poderoso Paulistano, sendo que o segundo foi marcado aos 42 minutos do segundo tempo, decretando o empate.
Em 1924, o Minas Gerais F. C. mudou de denominação. Passou a chamar-se Braz Athlético Club. Permaneceu na Primeira Divisão da A.P.E.A. O clube ficou em 7º lugar, entre 11 clubes. Para essa melhoria na campanha, foi fundamental a participação de Petronilho de Brito: disputou 13 jogos e marcou 10 gols.
Petronilho de Brito transferiu-se para o Sírio em 1925. E, logo em sua estréia, deixou sua marca contra o Ipiranga, marcando o gol do empate em 1 x 1.
De 28 de junho a 27 de setembro, o campeonato foi interrompido para que os clubes cedessem jogadores ao selecionado paulista que iria disputar o III Campeonato Brasileiro de Futebol. Petronilho de Brito foi convocado para a reserva do grande Friedenreich.
Pela primeira vez houve um desempate de campeonato, desempate, aliás, sensacional. O empate do primeiro jogo foi tido como insucesso pelos paulistas, daí a substituição de Friedenreich. Este que havia jogado aquém de suas possibilidades, contrariado pediu dispensa alegando estar doente. Petronilho de Brito foi no seu lugar, estreando contra os cariocas e no campeonato brasileiro. Foi vítima de sua estréia. Os paulistas perderam após luta épica, por 3 x 2.
De volta ao Campeonato Paulista, o Sírio ficou em 5º lugar, juntamente com o Palestra Itália, entre 12 clubes. Dos 23 gols marcados pelo clube, 10 foram de autoria de Petronilho de Brito, em igual número de jogos, ou seja, média de um gol por jogo.
Em 1926, Paulistano, A. A. das Palmeiras e Germânia, desfiliados da A.P.E.A., fundaram em 3 de dezembro de 1925, a Liga de Amadores de Futebol - LAF. O Sírio permaneceu filiado a A.P.E.A. Nos sete jogos que Petronilho de Brito disputou pelo Sírio, marcou 4 gols.
No dia 15 de setembro de 1926, participou do jogo-despedida de Neco, na goleada de São Paulo sobre a Guanabara, por 8 x 1.
No Brasileiro de Seleções de 1926 foi o maior destaque, consagrando-se como campeão e artilheiro da competição, com 15 gols.  No jogo São Paulo 16 x 0 Santa Catarina, em 26 de setembro, marcou  7 gols.
Em 1927, Petronilho de Brito transferiu-se para o Clube Atlético Independência e passou a disputar o campeonato da Liga de Amadores de Futebol - LAF. Mais uma vez, em sua estréia, no dia 29 de maio de 1927, marcou um gol, na vitória de 5 x 4 sobre o Paulista. Nos cinco jogos que disputou, marcou seis gols. No mesmo ano, foi vice-campeão do Brasileiro de Seleções em 1927, tendo participado da conturbada final  no Rio de Janeiro.
Continuou defendendo o Independência/Sant'Anna, no campeonato da LAF de 1928, com uma excelente performance: 12 jogos e 12 gols. Apesar disso, o clube não passou de um 7º lugar, entre 12 clubes.
Nesse ano, aconteceu a primeira participação pela Seleção Brasileira: 24 de junho, vitória sobre o Motherwell, por 5 x 0.
Em 1929, Petronilho de Brito retornou ao Sírio. Em virtude da programação do Campeonato Brasileiro de Seleções e de vários jogos internacionais em 1929, a Associação Paulista de Esportes Athleticos promoveu o seu campeonato da Divisão Principal deste ano em apenas um turno. Apesar da péssima campanha do Sírio, ainda assim Petronilho de Brito conseguiu destacar-se. Nos seis jogos que participou, marcou 5 dos 9 gols do Sírio.
Foi novamente lembrado para fazer parte da Seleção Brasileira em dois amistosos realizados, contra o Rampla Juniors, do Uruguai, e o Ferencvaros, da Hungria. Nesse último, em 10 de julho, vitória de 2 x 0, marcou o seu primeiro gol com a camisa da seleção brasileira.
Ultrapassou todas as expectativas no Campeonato Paulista de 1930. Mesmo com a irregularidade do Sírio (9º lugar entre 14 clubes), a participação de Petronilho de Brito foi excelente: 24 jogos e 26 gols. Na disputa pela artilharia, ficou atrás de Feitiço, o primeiro lugar, com 37 gols, e junto com Friedenreich, também com 26.
Os jornais da época passaram a considerar Feitiço, Friedenreich e Petronilho de Brito o "Trio de Ouro" dos goleadores paulistas.
Para se ter uma idéia da fama que havia alcançado Petronilho de Brito, no campeonato carioca de segundo quadros (equivalente aos aspirantes) de 1930, o Sírio venceu o Botafogo por 5 x 2, com três gols marcados pelo então novato Leônidas da Silva. A torcida ainda enlouquecida com sua apresentação não hesitou em batizá-lo de "o novo Petronilho" ou ainda, o "Petronilho carioca". O batismo era uma homenagem ao grande centroavante Petronilho de Brito.
A nota triste do ano foi a não participação na Copa do Mundo do Uruguai. Chegou a ser convocado para defender o Brasil mas, divergências entre A.P.E.A. e CBD impediram sua presença.
Novamente ficou em terceiro na disputa pelo primeiro lugar entre os artilheiros no Campeonato Paulista de 1931: desta vez, Feitiço alcançou a marca de 39 gols e Friedenreich assinalou 32 gols. Petronilho de Brito marcou 22 gols em 25 jogos.
Marcou dois gols no amistoso da Seleção Brasileira contra o Ferencvaros, da Hungria, no dia 2 de julho de 1931, na goleada de 6 x 1. Participou de apenas um jogo pelo Campeonato Brasileiro de Seleções de 1931, no dia 23 de agosto, marcando o único gol dos paulistas na derrota para os cariocas, por 3 x 1.
O Campeonato Paulista de 1932 teve uma brusca parada por causa da Revolução Constitucionalista, eclodida na capital, a 9 de julho. Iniciado em maio, o certame se desenvolveu até o dia 3 de julho. A rodada programada para o dia 10 só foi disputada no dia 6 de novembro, depois que cessaram as hostilidades e o campeonato prosseguiu, então, até o dia 18 de dezembro, quando se disputou o último jogo. Petronilho de Brito tomou parte de 7 jogos e marcou 2 gols.
A vitória de 5 x 3 sobre o Internacional, no dia 26 de junho de 1932, foi sua última partida no Brasil. Começou a enfrentar problemas de ordem financeira com a direção do Sírio. O clube deixava de pagar os ordenados, atrasando até quatro meses. Quando o clube não pagava, o jogador fazia greve, não jogava. Ficou mais de três meses sem atuar. Não participou de nenhuma partida após o fim da Revolução.
Logo depois, seria vendido para o futebol argentino a peso de ouro e em pouco tempo chamado pelos torcedores do San Lorenzo de Almagro de "El Maestro".
Em Buenos Aires, Petronilho de Brito continuou sendo destaque. Os cronistas argentinos esgotando o repertório de elogios quando tinham de escrever qualquer coisa a respeito dele: "El Bailarin", "El Artista de la Pelota", "El Malabarista", até chegar à admiração suprema "Fenômeno!"
Na primeira rodada, realizada no dia 12 de março de 1933, San Lorenzo 1 x 1 Lanús, aconteceu a estréia de Petronilho de Brito no futebol argentino (a confirmar).
Em 1933 foi disputado o primeiro campeonato argentino da era profissional. Dezoito clubes tomaram parte do certame. A campanha do San Lorenzo foi a seguinte: 34 jogos, 22 vitórias, 6 empates e 6 derrotas; marcou 81 gols e sofreu 48. Petronilho de Brito participou de apenas 19 jogos, tendo marcado 13 gols.
Na última rodada, disputada em 19 de novembro de 1933, a diferença entre os dois pretendentes ao título era de apenas um ponto: o Boca Juniors chegou com 49 pontos ganhos e o San Lorenzo com 48. O Boca Juniors perdeu como visitante o clássico com o River Plate, por 3 x 1. Também como visitante, no campo do Chacarita Juniors, o San Lorenzo venceu por 1 x 0, com gol de Diego García. O San Lorenzo formou um ataque brilhante: Magán, Cantelli, Petronilho de Brito, Diego García e Arrieta e com a personalidade de Luís Monti, figura legendária do futebol argentino. O campeonato deste ano foi muito disputado. Basta ver as demais colocações: em terceiro, o Racing, com 48 pontos, e em quarto River Plate e Gimnasia y Esgrima, com 46. Para se ter uma idéia da ofensividade dos clubes, foram marcados 1.075 gols em todo o campeonato.
Em 1934, o campeonato argentino foi novamente disputadíssimo. Outra vez a diferença do campeão (Boca Juniors) para o vice-campeão (Independiente) foi de um ponto: 55 a 54. O San Lorenzo, de Petronilho de Brito, ficou com a terceira colocação, com 51 pontos ganhos, realizando a seguinte campanha: 39 jogos, 22 vitórias, 7 empates e 10 derrotas; 84 gols a favor e 63 contra. Desta vez, a participação do atacante brasileiro foi maior: disputou 29 jogos e assinalou 16 gols.
Em seu último ano no futebol argentino (1935), Petronilho de Brito tomou parte de apenas 5 jogos, tendo marcado dois gols. No final do campeonato argentino, o San Lorenzo foi mais uma vez o terceiro colocado, novamente atrás de Boca Juniors (o 1º) e Independiente (2º).
Também em 1935, aconteceu sua última participação pela Seleção Brasileira: no dia 24 de fevereiro de 1935, o Brasil venceu o River Plate, da Argentina, por 2 x 1.
Faleceu em 1983, em São Paulo (SP).

quinta-feira, 31 de março de 2011

VOL. VI - CARVALHO LEITE


Carlos Antônio Dobbert de Carvalho Leite, ou simplesmente Carvalho Leite, nasceu em Niterói (RJ) a 26 de maio de 1912.
Centroavante no estilo trombador, chute forte, excelente colocação na área e grande cabeceador.
Ele é o segundo maior artilheiro da história do Botafogo com 261 gols registrados (atrás apenas de Quarentinha com 307) e o que fez mais tentos pelo clube em termos de campeonatos estaduais. Foi um dos dois únicos jogadores alvinegros, ao lado de Nilo, a participar da campanha de todos os títulos que culminaram no único tetracampeonato do futebol do Rio de Janeiro.
Disputou doze campeonatos cariocas pelo Botafogo, sendo por nove vezes seu artilheiro-mor e em três goleador máximo da competição.
Se isso não bastasse, participou de duas Copas do Mundo (1930 e 1934) e fez com a camisa da Seleção Brasileira 25 gols em 15 jogos. Por tudo isso, Carvalho Leite é considerado por muitos como o primeiro grande ídolo da imensa galeria de craques alvinegros de todos os tempos.
Começou sua carreira em Petrópolis, jogando pelo Petropolitano. Lá, já demonstrava seus dotes de grande artilheiro e, após integrar a Seleção do Estado do Rio, ao lado de outros futuros jogadores alvinegros como Ariel, Canalli e Afonsinho, foi trazido para General Severiano pelas mãos de Homero Borges da Fonseca, seu amigo e, como não poderia deixar de ser, um apaixonado pelas cores do Botafogo.
Corria o ano de 1929, e Leite já começava a se destacar nos treinos e amistosos, porém sem que ainda pudesse jogar oficialmente pelo novo clube, já que o regulamento da época exigia que, após a transferência de uma liga para a outra, o jogador tivesse que cumprir o estágio de um ano na nova entidade.
Sua estréia aconteceu no dia 14 de setembro de 1929, no estádio das Laranjeiras, na preliminar do jogo em que o time italiano  do Bologna foi derrotado pela seleção carioca por 3 x 1. O Botafogo derrotou por 4 x 2 um combinado de jogadores da A.M.E.A. Além de Carvalho Leite, estrearam outros jovens que defendiam as cores do Petropolitano: seu irmão Fernando, Heitor Canalli e Ariel Nogueira, todos eles propostos sócios pelo dedicado e veterano Homero Borges da Fonseca. Os gols do Botafogo foram marcados por Juju (2), Burlamaqui e Paulinho e o time formou assim: Germano, Alemão e Fernando; Canalli, Ariel e Burlamaqui; Álvaro, Paulinho, Juca da Praia, Carvalho Leite e Juju.
O primeiro gol com a camisa do Botafogo viria menos de um mês depois, a 12 de outubro de 1929, num amistoso em Vitória (ES), na vitória de 3 x 0 sobre o local Floriano.
Assim, o primeiro campeonato que disputou foi o de 1930. O Botafogo vinha de um jejum de 18 anos sem títulos cariocas e o time aliou a experência de veteranos como Nilo, Octacílio, Pamplona e Ariza com o jovem talento de Germano, Martim Silveira, Paulinho Goulart e, principalmente dele, Carvalho Leite.
Dessa forma, foi formada a base para um grande time que conquistaria, não só o título desse mesmo ano, como também os de 1932, 1933, 1934 e 1935. Foi o artilheiro da conquista de 1930, com 14 gols. Ainda no mesmo ano, sua trajetória brilhante o levou a condição de titular logo na primeira Copa do Mundo da qual participou. Porém, a sorte não ajudou no Uruguai. Uma luxação no braço direito o tirou da partida de estréia do Brasil contra a Iugoslávia. Com a derrota neste jogo, a equipe brasileira iria apenas cumprir tabela no jogo seguinte contra a Bolívia, em 22 de julho de 1930.
Um jogo qualquer para muitos, mas não para Carvalho Leite que queria sentir o gostinho de vestir pela primeira vez a camisa da Seleção. Mostrando fibra, ele mesmo optou por tirar o gesso do próprio braço, e, dizendo-se recuperado, participou da vitória brasileira por 4 x 0. Apesar de não ter feito gols, foi muito elogiado pela imprensa uruguaia por ter sido o autor dos passes precisos que resultaram em dois dos gols brasileiros. Isso tudo, apesar das dores que o atormentaram no decorrer da partida.
Em 1931, foi emprestado ao Vasco da Gama, juntamente com Nilo e Benedito, para uma excursão à Europa. O Botafogo também excursionou, e, na volta, não houve tempo suficiente para se obter um melhor entrosamento para o time. Dessa forma, nem mesmo os 13 gols que o fizeram vice-artilheiro do campeonato foram suficientes para dar o bicampeonato carioca ao Glorioso.
Neste mesmo ano, num amistoso entre Rio de Janeiro e São Paulo, no qual Carvalho Leite fez de tudo, de passes milimétricos a gols espetaculares, o Príncipe de Gales, que aproveitara sua visita à Cidade Maravilhosa para assistir ao jogo nas Laranjeiras, fez questão de ir ao vestiário cumprimentá-lo pela excelente partida realizada.
Os quatro anos seguintes seriam de puro festejo e alegria para o Botafogo. E para Carvalho Leite não poderia ser diferente: tetracampeão carioca, artilheiro alvinegro nas conquistas de 1932 (20 gols) e 1935 (16). Segundo suas próprias palavras, o time se entendia as mil maravilhas, tanto dentro como fora dos gramados.
Veio a Copa do Mundo de 1934, na Itália, competição que não lhe deixou boas recordações. O Brasil estreou jogando em Gênova contra a Espanha numa partida eliminatória. Carvalho Leite, que à época revezava-se com Armandinho, ao lado de Leônidas da Silva, no ataque da Seleção, acabou ficando na reserva. A equipe perdeu e voltou mais cedo para casa. Após a Copa, excursionou com o selecionado por diversos países da Europa e acabou por tomar de vez a posição de Armandinho. Só que aí já era tarde demais: o sonho de se tornar campeão do mundo estava definitivamente terminado. Restou o consolo de ter jogado ao lado dos dois maiores jogadores que viu jogar naqueles tempos: Waldemar de Brito e Leônidas da Silva.
De 1936 a 1940, o Botafogo não conquistou mais títulos cariocas, mas Carvalho Leite afirmou cada vez mais sua condição de goleador, sendo o artilheiro do Glorioso nesses cinco anos consecutivos. Conquistou, também, a artilharia máxima dos campeonatos do Rio de Janeiro em 1936, 1938 e 1939, com 15, 16 (empatado com Leônidas, do Flamengo) e 22 gols, respectivamente.
Em 1940, seu último ano jogando uma temporada inteira pelo Botafogo, Carvalho Leite se contundiu no decorrer do campeonato, mas, mesmo assim, seus 10 gols foram suficientes para torná-lo um dos artilheiros do time na competição, ao lado de Pascoal e Patesko.
No dia 17 de março de 1940 fez sua última apresentação pela Seleção Brasileira, com derrota para a Argentina, por 5 x 1.
Em 18 de maio de 1941, em General Severiano, ao machucar-se gravemente no primeiro tempo de um jogo contra o Bonsucesso (vitória de 5 x 1), retirou-se dos gramados para nunca mais voltar. Neste jogo também aconteceu seu último gol com a camisa do Botafogo.
Fez com que uma grande lacuna fosse aberta, lacuna essa que foi prontamente preenchida por um jovem rebelde que aprendeu muita coisa ao seu lado. Jovem este que, como ele, chutava com os dois pés, cabeceava de forma certeira, era vaidoso e fazia tanto sucesso com as mulheres quanto o já doutor do Botafogo. Seu nome: Heleno de Freitas.
Seu último jogo com a camisa do Botafogo aconteceu em 15 de janeiro de 1942, em Salvador (BA), no amistoso contra o Bahia, com vitória de 3 x 1. Geraldino, duas vezes, e Geninho, marcaram os gols da vitória alvinegra.
Além dos títulos conseguidos no Botafogo, foi campeão brasileiro jogando pela Seleção Carioca em 1931, 1935, 1938 e 1939.
Pertenceu ao extinto Colégio de Árbitros e, formado em Medicina, foi o responsável pelo departamento especializado do Botafogo, cargo que ocupou por quase cinqüenta anos.
Foi treinador do Botafogo em várias ocasiões. De 1941 a 1943 e de 1951 a 1953.
Faleceu no Rio de Janeiro, aos 92 anos, no dia 19 de julho de 2004.

sábado, 19 de março de 2011

Vol. V - MARTIM, LA FIERA


Martim Mércio da Silveira nasceu em Bagé (RS), no dia 19 de novembro de 1910.
Um dos maiores “center-halfs” do futebol brasileiro, de muita disposição e ao mesmo tempo clássico e elegante. Essa posição, no tempo do sistema 2-3-5, se constituía num trabalho maior do que o exercido por qualquer outro em campo. Centralizava tudo, em torno dele girava um time, por isso alguns cronistas o determinavam como o pivô ou o peão de uma equipe. Havia também quem designasse o “center-half” como o eixo do time.
A carreira de Martim começou em 1928, no Guarany, de sua cidade natal, com 18 anos de idade.
No ano seguinte, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Curiosamente, ao chegar, inscreveu-se para jogar em dois clubes: Flamengo e Botafogo, e optou pelo segundo.
Sua estréia no Botafogo aconteceu em 12 de outubro de 1929, em Vitória (ES), num amistoso que o Botafogo venceu o Floriano local, por 3 x 0.
Duas semanas depois, estreou em jogos oficiais. No dia 26 de outubro de 1930, pelo campeonato carioca, o Botafogo perdeu para o Fluminense, por 2 x 0. Martim foi substituído por Edmundo.
Neste ano, sagrou-se campeão carioca, participando de 20 jogos e marcando 3 gols.
Foi campeão brasileiro jogando pela Seleção Carioca e campeão da Copa dos Campeões Rio-São Paulo, no ano de 1931.
Em 1932 fez sua estréia na Seleção Brasileira, no dia 4 de dezembro, em pleno Estádio Centenário, em Montevidéu, na vitória de 2 x 1 sobre o Uruguai, jogo válido pela Copa Rio Branco daquele ano, troféu conquistado sobre os então campeões mundiais.
Também neste ano tornou-se campeão carioca pelo Botafogo. Esteve presente em todos os 22 jogos disputados pelo alvinegro carioca e marcou três gols.
Passou quase um ano na Argentina, contratado que foi pelo Boca Juniors, de Buenos Aires.
Fez sua estréia no dia 16 de abril de 1933, com vitória de 3 x 1 sobre o Velez Sarsfield.
Menos de um ano depois, deixou a Argentina. Seu último jogo com a camisa do Boca Juniors foi em 19 de novembro do mesmo ano, na derrota de 3 x 1 para o River Plate.
Como curiosidade, duas semanas antes, 5 de novembro de 1933, Martim enfrentou o brasileiro Petronilho de Brito, que era jogador do San Lorenzo. O Boca Juniors perdeu de 2 x 0 e Petronilho de Brito marcou um dos gols.
Os cronistas argentinos o apelidaram de "La Fiera".
Regressou ao Botafogo e foi convocado para a Copa do Mundo de 1934.
Capitão da Seleção Brasileira, participou da partida (única) contra a Espanha, na Copa do Mundo de 1934. O time brasileiro perdeu por 3 x 1.
No dia 2 de dezembro de 1934, no estádio General Severiano, o Botafogo levantou o tricampeonato carioca ao vencer o Andaraí por 2 x 1. Neste jogo Martim fez sua reestréia no Botafogo.
Voltou a se sagrar campeão carioca em 1935, o quinto título do Botafogo no período de 1930 a 1935. O Botafogo utilizou nesses seis anos 69 jogadores. Martim foi um dos que mais jogou: esteve em 81 jogos.
Esteve com a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, na França, como capitão da equipe e participou de três dos cinco jogos.
Também nesta Copa aconteceu sua despedida da Seleção Brasileira, em 16 de junho de 1938, na derrota de 2 x 1 para a Itália.
Foram 27 jogos pela Seleção Brasileira (seis oficiais): 17 vitórias, 5 empates e 5 derrotas.
Permaneceu no Botafogo até 1940. Seu último jogo com a camisa do Botafogo aconteceu em 15 de dezembro de 1940, na vitória de 2 x 1 sobre o América.
No início do ano de 1941, o Botafogo acertou uma excursão ao México. O veterano Martim não só não foi incluído na delegação, como não teve o seu contrato renovado.
Para a campanha do campeonato carioca de 1944, Martim Silveira foi contratado para técnico Martim Silveira. Revelara-se nessas novas funções no Canto do Rio.
Na metade do ano, gravemente enfermo, Martim Silveira  deixou a direção do Botafogo. Foi então contratado Ítalo Fratezzi, o popular Bengala.
Logo nos primeiros dias de fevereiro de 1946, Bengala preferiu voltar para Belo Horizonte e Martim foi novamente chamado para treinar o Botafogo.
Ainda foi treinador do Botafogo nos anos de 1952 e 1953.
Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 27 de maio de 1972.

terça-feira, 1 de março de 2011

Vol. IV - OG MOREIRA, O MAESTRO


Excelente centro-médio, posição que hoje corresponderia a de médio-volante, Og Moreira nasceu em Nova Friburgo (RJ), em 22 de outubro de 1917.
Tinha tanta classe em campo que recebeu o apelido de Toscanini, em homenagem ao maestro italiano Arturo Toscanini, pelo talento demonstrado com a bola nos pés.
Foi o primeiro negro a vestir a camisa do Palestra Itália, atual Palmeiras.
Nunca defendeu a Seleção Brasileira.
Começou no futebol em sua cidade natal e aos 16 anos, ainda juvenil, passou a integrar o time principal do Fluminense Atlético Clube, que se sagrou campeão de futebol de Nova Friburgo em 1933.
No ano de 1935, foi convocado para defender a Seleção do Estado do Rio de Janeiro (seleção fluminense). Disputou apenas um jogo no Campeonato Brasileiro de Seleções daquele ano. No dia 24 de março de 1935, no estádio General Severiano, na cidade do Rio de Janeiro, a seleção do Rio de Janeiro perdeu para a Bahia, por 5 x 4.
Logo depois, transferiu-se para o América, do Rio de Janeiro.
Faz sua estréia no América no dia 9 de junho, no empate de 1 x 1 com o Flamengo, em jogo válido pelo Torneio Aberto da Liga Carioca de Football, no campo do Fluminense. O América formou com Valter, Vital e Cachimbo; Oscarino, Og Moreira e Possato; Lindo, Clóvis, Carola, Jardel e Orlandinho. O Flamengo jogou com Germano, Carlos Alves e Marin; Alemão, Barbosa e Reinaldo; Sá, Beijinho, Alfredo, Nelson e Jarbas. Guilherme Gomes foi o árbitro. Carola marcou para o América e Sá para o Flamengo.
Neste ano de 1935, o América se tornaria campeão da Liga Carioca de Football, com Og Moreira completando 18 anos.
Og disputou todos os 15 jogos da campanha do América: foram 12 vitórias, 1 empate e duas derrotas, 50 gols a favor e 20 contra. Og marcou apenas um gol, na goleada de 7 x 2 sobre a Portuguesa, no dia 29 de setembro.
De 1936 a 1939, continuou no América, que foi 3º colocado em 1936 e 5º nos anos de 1937 a 1939. Atuando pela Seleção Carioca, sagrou-se bicampeão brasileiro nos anos de 1938 e 1939.
Em 1940, Og tinha a reputação de ser um dos maiores jogadores do Brasil e figura certa na seleção nacional que seria convocada para a disputa da Copa Roca (o que acabou não acontecendo). Crises e mais crises passam-se a suceder, numa seqüência e interminável, com notórios reflexos no prestígio do América.
Apesar de não pretender desfazer-se de seu mais eficiente jogador, tendo aceitado inclusive as altas exigências por ele apresentadas para a renovação do contrato. Eis, entretanto, que, depois de tudo acertado, Og deixa de lado a palavra empenhada e ainda no começo do campeonato carioca, transfere-se para o Racing, da Argentina.
A aventura durou pouco. Estreou no Campeonato Argentino de 1941, no dia 14 de abril, na goleada do Racing sobre o River Plate, por 6 x 3. Quando todos acharam que o time embalaria, vieram as derrotas seguidas e Og foi parar no banco. O campeonato acabou no dia 22 de dezembro e o Racing ficou com o quinto lugar, entre 18 clubes participantes. O Boca Juniors foi o campeão daquele ano.
Ano e meio mais tarde, regressava da Argentina, contratado pelo Fluminense.
Sua estréia no Fluminense aconteceu no dia 20 de abril de 1941, num amistoso no Estádio das Laranjeiras, 1 x 1 com o Flamengo (logo após a excursão que o Fluminense fez a Buenos Aires, Argentina).
Og Moreira estreou juntamente com Renganeschi.
O Fluminense jogou com Batatais, Norival e Renganeschi; Afonso, Og Moreira e Spinelli; Pedro Amorim, Russo, Rongo, Tim e Carreiro.
O Flamengo com Yustrich, Nilton e Volante; Pichim, Jaime e Médio; Sá, Zizinho, Hortênsio, Nadinho e Jarbas. Mário Vianna foi o árbitro do jogo, realizado no estádio das Laranjeiras.
O Fluminense foi campeão carioca após disputar 29 jogos (22 vitórias, 5 empates e duas derrotas). Og permaneceu mais tempo na reserva do que no time titular. Disputou apenas 4 jogos, tendo marcado um gol.
Insatisfeito, mudou para São Paulo, contratado pelo então Palestra Itália (atual Palmeiras). Sua estréia aconteceu em 4 de março de 1942, com derrota para a Portuguesa de Desportos, por 4 x 2, em um amistoso realizado no Parque Antarctica.
Formou o Palmeiras com Oberdan, Junqueira e Begliomini; Oliveira, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme, Cabeção, Lima e Pipi.
A Portuguesa de Desportos atuou com Barqueta, Pepino e Ulisses; Mimi, Jota e Alberto; Genarino, Charuto, Luizinho, Arthur e Antoninho.
Ameleto Riciarelli foi o árbitro do jogo.
Sobre a estréia de Og no Palmeiras, a Folha da Manhã disse: “O centro-médio carioca (Og) que iniciara indeciso, gradativamente foi firmando o seu padrão de jogo, sem contudo atingir tudo de que é capaz, o que é natural, já que se trata de uma primeira apresentação”.
No dia 20 de setembro de 1942, o Palestra Itália sagraria-se campeão paulista ao vencer o São Paulo por 3 x 1, jogando no Estádio do Pacaembu.
No segundo tempo, Og Moreira teve decisiva participação no jogo. Aos 14 minutos, Og Moreira arriscou um chute de fora da área, que foi aproveitado por Echevarrieta, de cabeça, deslocando o goleiro Doutor, marcando o terceiro gol do Palestra.
Aos 19, Og controlava a bola na entrada da área, quando Virgilio lhe dá um carrinho violento. O árbitro Jayme Rodrigues Janeiro apita, marca o pênalti e aponta para fora do gramado, expulsando o zagueiro são-paulino. Há a intervenção de outros jogadores, permanecendo o jogo parado. É solicitada a intervenção da polícia. Luizinho conversa com seus companheiros e decidem abandonar o gramado. O árbitro espera pelo tempo regulamentar e como os jogadores do São Paulo não retornam ao campo, dá o jogo por encerrado.
O público foi de 45.913 torcedores, que viram o Palestra Itália campeão com Oberdan, Junqueira e Begliomini; Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme, Echevarrieta, Villadoniga e Lima. O treinador era Del Debbio.
O São Paulo jogou com Doutor, Piolim e Virgílio; Lola, Noronha e Silva; Luizinho, Waldemar de Brito, Leônidas, Remo e Pardal.
No ano de 1943 foi vice-campeão brasileiro, atuando pela Seleção Paulista.
Consagrou-se novamente campeão paulista defendendo o Palmeiras em 1944. No mesmo ano, defendeu a Seleção Paulista no Brasileiro de Seleções, novamente ficando com a segunda colocação.
Defendeu o Palmeiras nos anos de 1945 e 1946, quando o clube não realizou boas campanhas, ficando com a terceira e a quinta colocações, respectivamente.
Em 1946, foi, de novo, vice-campeão do Brasileiro de Seleções, defendendo a Seleção Paulista.
Não mais como titular absoluto, sagrou-se novamente campeão paulista em 1947.
Pouca gente entendeu por que dois grandes valores do Palmeiras, Og Moreira e Lima, não vinham sendo aproveitados pelo técnico Osvaldo Brandão desde a temporada de 1947.
As coisas só começaram a clarear em 1948, quando se soube que Brandão havia denunciado Lima à diretoria do Palmeiras, acusando-o de haver “amolecido o jogo” contra o Corinthians, disputado no dia 23 de novembro e que Og Moreira fora o intermediário de uma transação excusa. Nada ficou provado mas, ainda assim, Brandão pediu rescisão do contrato.
O último jogo de Og Moreira no Palmeiras aconteceu em 22 de maio de 1949, em Tupã (SP): empate de 2 x 2 com o clube do mesmo nome.
No Palmeiras, Og Moreira fez um total de 197 jogos e marcou 27 gols. No mesmo ano de 1949, transferiu-se para o Nacional, da capital, onde fez sua estréia no dia 31 de julho, na derrota de 2 x 0 diante do Ypiranga. Foram poucos jogos com a camisa do Nacional e logo depois passou para o Juventus, onde encerrou sua carreira no ano de 1951.
Continuou no futebol, defendendo a equipe dos Veteranos Paulistas.
Desconhecemos a data de seu falecimento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

VOL III - IPOJUCAN, UM ARTISTA DA BOLA

Ipojucan Lins de Araújo nasceu em Maceió, Alagoas, a 3 de junho de 1926. A grafia correta do seu nome era Ipujucan mas ficou conhecido como Ipojucan.
Um dos maiores meia-armador do futebol brasileiro (no tamanho, quase 1,90 de altura, e na qualidade), Ipojucan ficou famoso pelos passes de calcanhar, pelos gols de falta com seu chute poderoso e pelos lançamentos de grande distância.
“Comparável a Pelé só Ipojucan”. As palavras do radialista Luiz Mendes não são elogios exagerados para Ipojucan, que também ficou conhecido no mundo do futebol como “Malabarista”.
Segundo o falecido Servílio de Jesus Filho, o grande Servílio da Portuguesa de Desportos, do Palmeiras, Corinthians e da Seleção Brasileira, ninguém fazia com a bola o que Ipojucan conseguia. “Ele foi meu técnico nos juniores da Portuguesa e mesmo tendo conhecido e jogado com o gênio Ademir da Guia, digo sem medo de errar que Ipojucan foi o jogador mais hábil que vi na vida. E olha que ele já era aposentado, quando nos ensinava a tocar na bola”.
Logo cedo Ipojucan veio para o Rio de Janeiro e não demorou para ser descoberto pelos olheiros espalhados nas esquinas suburbanas.
Foi no bairro da Piedade que ele chamou a atenção de um dirigente do River, que o convidou a jogar por lá. Mas ele não ficou muito tempo na equipe e logo se transferiu para o Canto do Rio. Também não demorou muito no clube de Niterói e passou para a equipe juvenil do Vasco da Gama, para onde foi levado em 1942, com dezesseis anos. Ficou no juvenil até 1944, quando se profissionalizou.
Na década de 40, o Vasco da Gama apresentava uma equipe de fazer inveja, em que praticamente todos os jogadores tiveram, ou teriam, passagem pela Seleção Brasileira.
No ataque, posição onde Ipojucan deveria jogar, o Vasco da Gama tinha vários craques, tais como Ademir Menezes, Lelé, Jair Rosa Pinto, Friaça, Chico e outros. Isso fez com que sua estréia no time titular demorasse por um bom tempo.
O time do Vasco da Gama que Ipojucan encontrou era tão bom que nos próximos seis anos, somente em 1946 ele não foi campeão ou segundo colocado. Foi vice-campeão em 1944, alcançou o título de campeão em 1945, voltou a vencer em 1947, ficando em segundo em 1948 e continuou sobressaindo no futebol carioca com mais um título em 1949.
A tarefa de entrar num time desses era muito difícil.
Além dos títulos no Rio de Janeiro, no começo do ano de 1948, o Vasco da Gama venceu o Torneio de Clubes Campeões Sul-Americanos, no Chile. Ipojucan não acompanhou a delegação que disputou essa competição.
Mas sua primeira oportunidade no time de cima do Vasco da Gama acabaria acontecendo neste ano.
No dia 4 de agosto de 1948, em São Januário, Ipojucan jogou na ponta-esquerda na vitória de 2 x 0 sobre o América, válido pelo campeonato carioca.
Só voltaria a jogar pelo Vasco da Gama em 5 de dezembro de 1948, no estádio das Laranjeiras, quando seu clube venceu o Fluminense, por 2 x 0, marcando seu primeiro gol com a camisa cruzmaltina. Desta vez, ele atuou na posição que o consagraria posteriormente. Não deixou escapar essa oportunidade, tornando-se titular do grande time do Vasco da Gama a partir de então.
O Vasco da Gama sagrou-se campeão carioca invicto em 1949. Em 20 jogos, foram 18 vitórias e dois empates. Ipojucan disputou 16 jogos e marcou 12 gols.
1950 foi o ano de afirmação de Ipojucan.
Defendendo a Seleção Carioca conquistou o campeonato brasileiro. No dia 16 de março, em São Januário, marcou dois gols na vitória de 4 x 0 sobre São Paulo, vitória essa que daria o título aos cariocas (os outros dois jogos terminaram empatados).
Logo depois, participou dos treinamentos da Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1950.
Fechando o ano com chave de ouro, tornou-se bicampeão carioca pelo Vasco da Gama. Dos 20 jogos que o clube realizou, Ipojucan esteve em 14 deles, repetindo a dose de 1949 ao marcar 12 gols.
Teve grandes atuações em dois clássicos. No dia 26 de novembro de 1950, marcou três gols na vitória de 4 x 1 sobre o Flamengo. Repetiria a dose no dia 6 de janeiro de 1951, ao marcar outros três gols no jogo Vasco da Gama 4 x 0 Fluminense.
O Vasco da Gama não fez um bom campeonato carioca em 1951, terminando na quinta colocação. Ipojucan marcou apenas dois gols.
Ipojucan recuperaria-se no ano seguinte, ao ser peça fundamental na conquista do campeonato carioca de 1952, participando de 19 dos 20 jogos disputados pelo Vasco da Gama na competição, tendo marcado 8 gols.
Ainda em 1952 foi convocado para a Seleção Brasileira que conquistou o título pan-americano do Chile. Sua estréia aconteceu no dia 20 de abril de 1952, na vitória de 3 x 0 sobre o Chile.
Foi vice-campeão brasileiro com a seleção carioca, participando de apenas um jogo, justamente o último, no dia 8 de junho de 1952, no empate de 1 x 1 com São Paulo.
Ipojucan participou de cinco jogos pela Seleção Brasileira no ano de 1953, todos eles válidos pelo Campeonato Sul-Americano disputado em Lima, Peru. Marcou o seu único gol com a camisa da seleção brasileira no dia 15 de março de 1953, o da vitória de 1 x 0 sobre o Uruguai.
Com o Vasco da Gama voltaria a fazer uma má campanha no campeonato carioca de 1953: o clube chegou na quarta colocação.
Seu último gol marcado no campeonato carioca foi em 5 de dezembro de 1953, o do empate em 1 x 1 com o América.
Sua última partida oficial pelo Vasco da Gama aconteceu no dia 10 de janeiro de 1954, em jogo válido pelo campeonato carioca do ano anterior. O Vasco da Gama foi goleado pelo Flamengo, por 4 x 1.
Transferiu-se para a Portuguesa de Desportos em 1954, onde estreou oficialmente no dia 15 de agosto, na vitória de 2 x 1 sobre o Guarani, em jogo válido pelo campeonato paulista.
No ano seguinte, ajudou a Portuguesa de Desportos a conquistar novamente o Torneio Rio-São Paulo.
Na final, em dois jogos contra o Palmeiras, o primeiro terminou empatado em 2 x 2, no dia 29 de maio de 1955. O título veio no dia 5 de junho de 1955, na vitória de 2 x 0, com o segundo gol marcado por Ipojucan.
Nos dias 23 e 25 de agosto de 1955, a Seleção Paulista enfrentou, no estádio Centenário, em Montevidéu, um combinado de jogadores dos clubes Nacional e Peñarol, que sempre formaram a base da seleção do Uruguai. Ipojucan participou dos dois jogos.
A última vez de Ipojucan na Seleção Brasileira foi em 17 de novembro de 1955, no empate de 3 x 3 com o Paraguai, pela Copa Osvaldo Cruz, conquistada pelo Brasil. Antes, havia ajudado o Brasil a levantar a Taça Bernardo O'Higgins contra o Chile.
Portuguesa de Desportos e Ipojucan passaram os anos de 1956 e 1957 sem brilharem.
No ano de 1958, aconteceu o último jogo de Ipojucan na Portuguesa de Desportos: no dia 16 de novembro, pelo Campeonato Paulista, com derrota para o Corinthians por 3 x 1.
Na Portuguesa de Desportos foram 218 jogos (101 vitórias, 43 empates e 74 derrotas), tendo marcado 52 gols.
Em 1959, tentou a carreira de técnico, mas não se deu bem. Com a saúde abalada - sofreu inclusive um transplante de rim -, Ipojucan viveu momentos difíceis.
Em 1966, enquanto treinava o Noroeste, de Bauru (SP), Ipojucan passou a sofrer de nefrite, uma doença nos rins. Ficou internado mais de quatro anos, fazendo vários exames, até que sua irmã Iraci doou o rim para ele.
Em 1970, Ipojucan fez um dos primeiros transplantes de rins na América do Sul, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. O resultado da cirurgia foi um sucesso.
Por volta de 1977, Ipojucan voltou a ficar doente, tendo tosses estranhas e muito cansaço.
No ano seguinte, ele voltou ao hospital devido a uma disritmia cardíaca. Um dia depois de o Brasil empatar com a Argentina em 0 x 0, pela Copa do Mundo daquele ano, Ipojucan faleceu em São Paulo, após uma parada cardio-respiratória.
Era o dia 19 de junho de 1978.
Eleito o melhor meia-direita do Vasco da Gama de todos os tempos, segundo pesquisa realizada pela revista esportiva Placar, entre jornalistas, dirigentes, jogadores e torcedores, no ano de 1982.
É o quarto maior artilheiro do Vasco da Gama, com 225 gols em 413 jogos.

sábado, 20 de novembro de 2010

VOL. II - FEITIÇO, O MÁGICO DO GOL


Luís Macedo Matoso, o Feitiço, nasceu em 29 de setembro de 1901, no bairro italiano do Bexiga, em São Paulo (SP), onde passou sua infância e juventude e também começou a jogar futebol.
Surgiu para o futebol jogando na equipe amadora do Ítalo Lusitano F. C., do bairro de Pinheiros. Em 1916, fez 52 gols na temporada da várzea paulistana.
No seu tempo, ao atacante de “estilo heróico” exigia-se muito mais do que heroísmo. Entrar numa área, para o combate direto com zagueiros violentos e implacáveis, era quase uma missão suicida, à qual só se expunham os centro-avantes mais corajosos. Feitiço tinha coragem e realmente se caracterizava pelo estilo heróico, mas não firmou seu nome apenas por ser um valente brigador na zona de choque. Manhoso, versátil, tão hábil no drible curto como nas arrancadas, tinha excelente colocação na área e cabeceava com maestria.
Passou a jogar na Segunda Divisão do futebol de São Paulo e continuou sendo o mesmo artilheiro da várzea, a ponto de ser apelidado de “El Tigre da Segunda Divisão”, numa alusão a Arthur Friedenreich.
Viria a ser, o maior goleador do futebol brasileiro daquele início da década de 20 e está hoje entre os maiores artilheiros da história do nosso futebol.
No dia 4 de junho de 1922, aconteceu a estréia de Feitiço no campeonato paulista, com a camisa azul e branca da A. A. São Bento. O adversário era o fortíssimo time do Palestra Itália (vice-campeão paulista daquele ano) e a derrota foi inevitável: 2 x 0.
Continuou sem marcar gol no jogo seguinte, novamente contra um forte adversário, o Corinthians (campeão de 1922), que venceu o São Bento por 1 x 0.
Mas, no terceiro jogo, em 15 de junho de 1922, contra o Internacional, Feitiço marcou três gols na vitória de 5 x 0.
Passou alguns jogos sem marcar mas, quando voltou a fazê-lo foi com destaque. No dia 15 de novembro, diante do Portuguesa/Mackenzie, outra goleada de 5 x 0 e desta vez quatro gols de Feitiço.
Um gol na vitória de 3 x 0 sobre o Paulistano, dois gols no empate de 2 x 2 com o Ypiranga e mais dois gols na derrota de 5 x 2 para o Sírio, passaram a chamar a atenção dos dirigentes do Palestra Itália, que queriam contratá-lo a todo custo. Só que ele já tinha dado sua palavra aos diretores da A. A. São Bento e quando tentou romper o compromisso com essa agremiação, conta-se que um dos diretores do clube, que era delegado de polícia, chamou o artilheiro na delegacia e ameaçou prendê-lo se ele não respeitasse a palavra empenhada. O jogador preferiu, então, permanecer no São Bento.
Veio o campeonato paulista de 1923 e Feitiço continuou confirmando a fama de grande artilheiro. O São Bento foi o quinto colocado entre oito times e marcou 34 gols. Destes, 18 foram de Feitiço, que se consagrou, pela primeira vez, artilheiro do campeonato paulista, tendo participado de 17 jogos. O maior destaque aconteceu na goleada do São Bento sobre a A. A. das Palmeiras, no dia 16 de setembro, por 9 x 1. Feitiço marcou cinco gols.
Nesse mesmo ano de 1923, Feitiço foi campeão brasileiro defendendo a seleção de São Paulo, que venceu a seleção carioca por 4 x 0, na final do dia 28 de outubro de 1923, com três gols de Tatu e um de Feitiço.
No campeonato paulista de 1924, o São Bento foi o terceiro colocado entre os onze times que disputaram a competição. Contribuiu para isso Feitiço ter-se tornado artilheiro do campeonato pelo segundo ano consecutivo, desta vez com 14 gols, quase metade do alcançado pelo clube (30).
Não pôde repetir o feito de sagrar-se campeão brasileiro defendendo a seleção paulista, pois a final, desta vez, foi vencida pelos cariocas, por 1 x 0, no dia 21 de dezembro de 1924. Dias antes, deixou sua marca na competição ao marcar um gol na goleada de São Paulo sobre o Paraná, por 5 x 0.
Em 1925, Feitiço integrou, por empréstimo, a equipe do Palestra Itália que realizou a primeira excursão internacional de sua história, jogando no Uruguai e na Argentina. Participou dos quatro jogos realizados. No dia 8 de março, no estádio Parque Central, em Montevidéu, marcou os dois gols do Palestra Itália na derrota de 3 x 2 diante de um combinado uruguaio. Uma semana depois, 15 de março, no mesmo local, nova derrota para o mesmo combinado uruguaio, por 1 x 0.  No dia 19 de março, já em terreno argentino, mais precisamente no campo do Racing, o Palestra Itália foi derrotado pelo combinado argentino por 3 x 1, sendo o gol marcado por Feitiço. O Palestra Itália encerrou sua excursão no dia 22 de março, no estádio do Barracas, em Buenos Aires, empatando em 0 x 0 com o combinado argentino da Federação Amadora. Portanto, Feitiço marcou todos os gols do Palestra Itália.
Ao retornar ao seu clube, o São Bento, tornou-se, pela terceira vez consecutiva o artilheiro do campeonato paulista, com 10 gols. Gols estes que ajudaram ao São Bento a conquistar o campeonato paulista daquele ano pela primeira e única vez em sua história, com direito a marcar o gol da vitória sobre o poderoso C. A. Paulistano, de Friedenreich, na final do campeonato, no dia 8 de novembro de 1925.
No Brasileiro de Seleções, mais uma vez vencido pelos cariocas, disputou apenas três jogos, deixando a sua marca novamente contra o Paraná, quando marcou três gols na goleada de 6 x 1. Ficou de fora dos dois jogos da final contra a seleção do Rio de Janeiro.
No ano em que ocorreu a cisão no futebol paulista, 1926, com a criação de uma nova entidade, a Liga de Amadores de Futebol – LAF, e a realização de dois campeonatos paulistas (o outro foi o da APEA), São Bento e Feitiço tiveram atuações apagadíssimas em 1926. O São Bento foi o penúltimo (9º) colocado no campeonato da APEA, marcando apenas 9 gols e sofrendo 31 nos nove jogos disputados. Feitiço marcou apenas três gols.
Seu último jogo pelo São Bento aconteceria no dia 5 de setembro de 1926, sendo goleado pelo Auto Esporte por 5 x 0. O ano foi tão triste que o São Bento entregou os pontos (WO) de seu último jogo válido pelo campeonato paulista, contra o Santos.
Apesar do mal desempenho no campeonato paulista, foi convocado para a Seleção Paulista que disputou o Brasileiro de 1926.
Mesmo sem poder contar com os craques do Paulistano (que se filiou a LAF), São Paulo venceu o campeonato causando ótima impressão ao marcar 37 gols em 4 jogos (média superior a 9 gols por jogo). Muito contribuiu para o excelente desempenho do selecionado paulista um trio central magnífico formado por Heitor (6 gols), Petronilho de Brito (15) e Feitiço (7).
Essa superioridade fez com que o título de campeão brasileiro fosse recuperado pelo futebol paulista, com direito a vitória na partida final contra os cariocas, no Rio de Janeiro, por 3 x 2, no dia 7 de novembro de 1926. Feitiço marcou um gol na final.
Em 1927, após se desligar do São Bento, ficou mais de seis meses sem defender um clube, ganhando como prêmio dessa equipe uma carroça com a qual passou esse período trabalhando com ela, fazendo carretos e entregas em São Paulo.
No início de 1927, Feitiço conheceu o fundador do Santos, Antônio Araújo Cunha, que o convidou a ingressar no alvinegro praiano.
Feitiço estreou no Santos em 3 de abril de 1927. E começou bem, marcando um gol na vitória contra o Palestra Itália, em jogo amistoso realizado no Parque Antarctica, em São Paulo. O placar final foi de 3 x 2 e os outros marcadores santistas foram Camarão e Araken. A vitória valeu ao Santos a Taça “Cruz Azul”.
Feitiço encaixou como uma luva no ataque do Santos, formado ainda por Omar, Camarão, Araken e Evangelista. Com este ataque, o Santos surpreendeu a todos no certame da APEA com a marcação de cem gols em apenas dezesseis jogos disputados, média de 6,25 gols por jogo.
Ainda assim, ficou com o vice-campeonato, atrás do Palestra Itália. Feitiço participou de onze jogos e marcou impressionantes 30 gols, somente um a menos que seu companheiro de clube Araken, artilheiro do campeonato.
Mas nem tudo correu bem no ano de 1927. Neste ano, Feitiço integrava a seleção paulista no jogo decisivo do Campeonato Brasileiro, no Rio de Janeiro, contra os cariocas, no dia 13 de novembro. A partida estava empatada em 1 x 1 quando Bianco cometeu pênalti, assinalado pelo árbitro Ari Amarante. Houve contestação geral da equipe paulista. Um dos mais exaltados em atos de disciplina foi Feitiço. A discussão paralisou o jogo durante cerca de meia hora e, nem mesmo um pedido feito pelo então Presidente da República, Washington Luís, presente ao estádio de São Januário, fez com que os paulistas concordassem em aceitar a penalidade. Como a arbitragem se mostrou inflexível, a equipe paulista saiu de campo, enquanto Fortes batia o pênalti, dando a vitória e o título da temporada de 1927 para o Rio de Janeiro.
Diante do ocorrido, a CBD ameaçou eliminar aqueles jogadores do futebol brasileiro. Após o jogo, nos vestiários, Guilherme Gonçalves, presidente do Santos e da APEA, confirmou que dois já estavam eliminados (Tuffy e Feitiço).
Em meados de 1928, a CBD decidiu analisar pedidos de anistia em favor dos jogadores punidos e concedeu perdão a Amílcar, Pepe e Grané. Tentou perdoar também Tuffy e Feitiço, mas o Santos não consentiu. Porém, a CBD insistiu e forçou a APEA a dar anistia a todos e o Santos não teve outra alternativa senão a de liberar os dois jogadores para ingressarem nos clubes que lhes interessassem. Tuffy foi para o Corinthians e Feitiço preferiu se manter em silêncio. O Santos ainda tentou transformar a pena de Feitiço de eliminação para suspensão de dois anos, com o que não concordou a CBD.
Na verdade, a CBD estava simplesmente protegendo o atleta visando seus interesses. Ela precisava contar com os melhores jogadores da época, para formar seu selecionado que iria enfrentar, naqueles dias, a poderosa equipe escocesa do Motherwell.
No dia 24 de junho de 1928, Feitiço fez sua primeira partida com a camisa da Seleção Brasileira, marcando quatro dos cinco gols da vitória de 5 x 0 sobre o Motherwell, no estádio das Laranjeiras.
Foi por isso que Feitiço pôde voltar a jogar futebol em defesa do Santos. No seu retorno ao clube, no dia 8 de julho, o Santos goleou a Portuguesa de Desportos por 4 x 0, com um gol de Feitiço.
Ao final da temporada, o Santos ficou novamente com o vice-campeonato e Feitiço com o título de artilheiro da equipe, com 10 gols.
Feitiço não pôde disputar o Campeonato Brasileiro de 1928, que foi marcado por muitos desentendimentos fora e dentro dos gramados.
Dentre os principais acontecimentos do Campeonato Brasileiro de 1928 se destacou o da ausência da Seleção de São Paulo. Os dirigentes da A.P.E.A. já não concordavam com o paternalismo da CBD, que continuava marcando o jogo final para o Rio de Janeiro. A proposta dos paulistas era a realização de uma melhor de quatro pontos, em jogos nas sedes dos Estados que se classificassem para a final. O ultimato dos paulistas foi firme, e diziam eles que enquanto essa fórmula não fosse posta em vigor eles não participariam do campeonato brasileiro.
O presidente da CBD, Renato Pacheco, prometera estudar a proposta feita pelos dirigentes da A.P.E.A. Como a CBD não resolveu o assunto, por ocasião da reforma das suas leis, julgaram os dirigentes paulistas ver nisso uma desconsideração e resolveram que São Paulo não participaria. Assim, pela primeira vez, os paulistas estiveram ausentes do campeonato.
Em virtude da programação do Campeonato Brasileiro de Seleções e de vários jogos internacionais em 1929 (estiveram no Brasil o Rampla Juniors, do Uruguai, o Ferencvaros, da Hungria, o Chelsea, da Inglaterra, o Bologna, da Itália e o Vitória de Setúbal, de Portugal), a A.P.E.A. promoveu o seu campeonato da Divisão Principal deste ano em apenas um turno. A primeira rodada foi somente realizada em 12 de maio.
Pelo terceiro ano consecutivo, o Santos foi vice-campeão paulista. Feitiço voltou a ser artilheiro da competição, com 13 gols.
São Paulo voltou a disputar o Campeonato Brasileiro em 1929 e Feitiço voltou a marcar muitos gols. Foram 11 nos seis jogos que disputou, ficando com a segunda colocação entre os artilheiros (o carioca Russinho marcou 12).
Na final, realizada já em 1930, no dia 12 de janeiro, no Parque São Jorge, São Paulo goleou o Rio de Janeiro por 4 x 2, com um gol de Feitiço, e recuperou o título de campeão brasileiro.
O ano de 1930 foi excepcional para Feitiço. Marcou 37 gols no campeonato paulista, feito ainda inédito na história da competição. Antes dele, somente Friedenreich, em 1921, havia passado dos trinta gols em uma temporada: 33 gols. A excelente marca alcançada por Feitiço, no entanto, não permitiu ao Santos obter o título de campeão, ficando com a quarta colocação.
Não foi realizado o campeonato brasileiro em 1930. O Brasil inteiro passou por momentos de grande instabilidade política. A Revolução de 1930 foi um movimento político-militar que se difundiu por vários Estados, promovendo a derrubada de governadores e culminando com a deposição do Presidente Washington Luís pelas Forças Armadas.
Quando todos imaginavam que a marca do ano anterior ia demorar para ser quebrada, eis que Feitiço consegue a proeza de assinalar 39 gols no campeonato paulista de 1931. Esta marca somente seria ultrapassada por Pelé, em 1958, quando assinalou 58 gols.
O Santos ficou um ponto somente atrás do São Paulo, campeão paulista de 1931.
Seu bom momento o fez ser chamado para integrar a seleção brasileira que venceu a Copa Rio Branco no dia 6 de setembro de 1931, ao vencer por 2 x 0 os então campeões mundiais, os uruguaios.
A paz voltou a reinar em 1931 e foi possível o retorno do campeonato brasileiro de seleções, campeonato este que em 1931 foi marcado pela ausência de vários craques paulistas arrebatados por clubes italianos. Por outro lado, o ano foi dos mais prósperos para o futebol carioca. A perda de alguns craques foi recompensada com o surgimento de uma leva de craques provenientes dos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, tais como Domingos da Guia e Leônidas da Silva.
Atuando ao lado de Friedenreich, Feitiço marcou cinco gols no campeonato brasileiro de 1931. Isso não impediu que os cariocas recuperassem o título de campeão.
Sua partida de despedida do Santos foi no dia 2 de julho de 1932, contra a Portuguesa de Desportos, na vitória pelo placar de 5 x 1. Os gols foram de Feitiço, Logu (2), Mário e Victor.
Uma semana depois, o campeonato paulista de 1932 teve uma brusca parada por causa da Revolução Constitucionalista, eclodida na capital, a 9 de julho. Depois que cessaram as hostilidades, o campeonato voltou a ser disputado em 6 de novembro.
Quando começaram a falar que estava acabado para o futebol, eis que Feitiço ressurge no Peñarol, de Montevidéu, onde deslumbrou os uruguaios e foi celebrizado “Cabeza de Oro” nos três anos em que lá ficou.
Em seu primeiro ano de Uruguai, quase conquistou o título. Em 1933, Peñarol e Nacional terminaram o campeonato uruguaio com o mesmo número de pontos ganhos. Isso fez com que fosse necessária a realização de um “play-off” no Estádio Centenário para se conhecer o campeão daquele ano. Feitiço não jogou o primeiro jogo, em 27 de maio de 1934, e o placar ficou no 0 x 0. No segundo, em 2 de setembro de 1934, Feitiço jogou mas o placar novamente não foi mexido.
No terceiro e decisivo jogo, Feitiço não jogou novamente e o Nacional venceu por 3 x 2, conquistando o título uruguaio de 1933.
Em 1934, novamente o Peñarol ficou com a segunda colocação no campeonato uruguaio, três pontos atrás do maior rival, o Nacional.
O título de campeão uruguaio só pôde ser comemorado em 1935, dois pontos a frente do Nacional.
Depois de três temporadas no futebol do Uruguai, com quase 35 anos, Feitiço voltou ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro para defender o Vasco da Gama. Logo na estréia marcou dois gols num amistoso em que o Vasco da Gama venceu o Botafogo por 3 x 0, em 14 de maio de 1936.
No Vasco da Gama, Feitiço continuou a mostrar a sua vocação para marcar gols, sendo destaque no título de campeão carioca de 1936, quando foi o artilheiro da equipe com nove gols, e inclusive marcando ambos os gols da vitória por 2 x 1 sobre o Madureira na decisão do campeonato, mesmo enfrentando a zaga chamada “o terror dos subúrbios”, formada por Cachimbo, o “Golias Negro” e Norival. Feitiço participou de 15 dos 16 jogos do Vasco da Gama.
Em 1936, pouco antes de completar 35 anos de idade, foi novamente convocado para defender a seleção carioca, que desta vez ficou em terceiro lugar. Marcou três gols na competição.
Sua última participação pelo campeonato brasileiro de seleções se deu no dia 21 de junho de 1936, em Porto Alegre, quando gaúchos e cariocas empataram em 2 x 2, sendo um dos gols cariocas marcado por Feitiço. Não mais jogaria por esse certame.
No ano da pacificação no futebol carioca, 1937, o Fluminense foi campeão. O Vasco da Gama ficou com a terceira colocação. Feitiço disputou poucos jogos como titular e marcou poucos gols: seis no total.
Seu último jogo com a camisa do Vasco da Gama foi bastante tumultuado. Em 19 de janeiro de 1938, nas Laranjeiras, o Flamengo goleou o Vasco da Gama por 5 x 1. Nada menos que sete jogadores do Vasco da Gama foram expulsos, um deles, Feitiço, por reclamação. O jogo não acabou antes da hora pois, naquela época, o jogador expulso podia ser substituído. Orlando entrou em seu lugar.
Ainda em 1938, mesmo já veterano, finalmente pôde defender o seu clube de coração, o Palestra Itália.
Sua estréia aconteceu na disputa pela Taça “Embaixatriz Logacomo”, em dois jogos contra o Corinthians. No primeiro, no Parque São Jorge, em 13 de maio, empate em 2 x 2. Feitiço substituiu Barrilote e não marcou. No segundo, no Parque Antarctica, efetivado pelo técnico uruguaio Ramón Platero como titular, marcou dois gols na goleada de 4 x 1.
Logo depois, o Palestra Itália conquistou o Torneio Extra (Taça Artur Tarantino). Feitiço marcou gols na vitória de 4 x 0 sobre o Ypiranga (um) e 3 x 0 São Paulo (um).
Na excursão que o Palmeiras realizou até o Ceará, entre novembro e dezembro de 1938, marcou três gols nos quatro jogos disputados.
No campeonato paulista, revezando entre o time titular e a reserva, o Palestra Itália acabou ficando na quarta colocação.
Em 1939, uma goleada de 6 x 0 para o São Paulo, ainda pelo campeonato paulista de 1938, dá início a uma verdadeira revolução. Veteranos como Jurandir, Tunga e Barrilote dão lugar a jovens como Gijo, Echevarrieta e Carlos. Mesmo com Feitiço disputando poucos jogos como titular e marcando poucos gols, o Palestra Itália sagrou-se vice-campeão paulista em 1939.
O último gol com a camisa do Palestra Itália foi marcado no dia 14 de dezembro de 1939, no Parque Antarctica, na goleada de 6 x 1 sobre o América, de Belo Horizonte (MG).
Sua despedida do Palestra Itália aconteceu no dia 3 de março de 1940, em Jundiaí (SP), no amistoso em que seu time venceu o Paulista local por 4 x 2.
No total, foram 55 jogos pelo Palestra Itália, com 28 gols marcados.
Ainda no ano de 1940, encerrou sua carreira no futebol, defendendo o São Cristóvão no campeonato carioca daquele ano. Chegou a marcar alguns gols (na derrota de 3 x 1 para o Fluminense, em 7 de julho, quando também foi expulso por “gestos descabidos”). Uma semana depois, nova derrota para o Vasco da Gama, por 2 x 1, marcando o gol do São Cristóvão, cobrando pênalti. No dia 1º de agosto, marcou o gol da vitória de 1 x 0 sobre o Bonsucesso.
Virou árbitro depois que pendurou as chuteiras, estreando em sua nova profissão no Campeonato Paulista de 1943.
O grande artilheiro Feitiço faleceu no dia 23 de agosto de 1985, junto aos amigos da Associação dos Veteranos, em São Paulo (SP).
Araken Patusca o definiu como o mais raçudo e valente centroavante que ele conheceu.
Marcou 414 gols em 18 anos de carreira.
No Santos, figura como quinto artilheiro de todos os tempos, superado somente por Pelé, Pepe, Coutinho e Toninho Guerreiro. Com 213 gols marcados em 151 partidas, ele é o jogador com a maior média de gols da história do Santos (1,41 por jogo).

Fontes:

1. Site do Santos Futebol Clube
2. Almanaque do Palmeiras
3. O Caminho da Bola 1902-1952
4. História dos Campeonatos Cariocas de Futebol 1906/2010
5. A História Ilustrada do Futebol Brasileiro – Quarto Volume